Sem Judas, os 12 "apóstolos", comandados pelo deputado Carlos Henrique Gaguim (PMDB), a oposição, sob a experiência e a sapiência do deputado Raimundo Moreira (PSDB), e a democracia, com a não intervenção do governo do Estado, foram os grandes vencedores de uma das maiores batalhas da história política do Tocantins: a eleição da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa. O processo teve como pano de fundo ingredientes religiosos: lágrimas, tentação, fé e glória.
A vitória de Gaguim começou a ser construída às 3 horas da madrugada dessa quinta-feira, quando 13 dos 24 deputados resolveram fechar questão em torno do parlamentar peemedebista.
Como numa Sexta-Feira da Paixão, a quinta-feira começou num clima de pura tensão. O então presidente da Assembléia, César Halum (PFL), sentiu que a vitória consolidada do dia anterior já tinha se tornado dúvida e surpreendeu, após a solenidade de posse dos eleitos, transferindo a eleição da Mesa Diretora para as 14 horas. O placar favorável a ele, que se especulava em 15 a 9, na quarta-feira, tinha sido revertido para 13 a 11 em favor de Gaguim.
As romarias pelos corredores da Assembléia, logo após a sessão de posse, se tornaram intensas. Então, veio a primeira tentação. E, com ela, a primeira queda. O deputado Sandoval Cardoso (PMDB) deixou a terceira secretaria de Gaguim para o ocupar o mesmo cargo na chapa de Halum. Com isso, estavam definidos os apóstolos: 12 de cada lado.
As articulações não avançaram: ninguém cedia. Num verdadeiro Cabo de Guerra, uns puxavam para lá, outros para cá, mas ninguém caia. Os ânimos dos romeiros se arrefeceram e a romaria parou.
No entanto, como a procissão precisava continuar, o governo do Tocantins entrou. Aqui cabe um elogio (quero ser o primeiro a criticar, porém também quero ser o primeiro a elogiar). O governo entrou não para fazer o papel do diabo, tentando os apóstolos enquanto estavam no deserto da indefinição. Mas para exercer o papel legítimo que cabe a ele no pleno exercício da democracia: ser um interlocutor.
Seu "messias", o secretário de Governo, Manoel Bueno, conversou, conversou e conversou. Quando viu que não haveria solução, o governador Marcelo Miranda (PMDB) propôs ao "apóstolo" Eli Borges (PMDB), dos 12 de Gaguim, que fosse ele o candidato de consenso. A "apóstola" Solangue Duailibe (PT), dos 12 de Halum, protestou. Eli é hoje adversário do prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), seu esposo. Assim, os 12 do pefelista a acompanharam. E a procissão parou novamente.
Sem outra saída, o único caminho possível foi seguir a romaria rumo ao "Gólgota": o plenário. E veio a segunda tentação. Dr. Zé Viana (PSC) balançou. A imagem de uma máquina digital não deixou dúvidas: num canto do plenário, Gaguim chorou.
Nos 30 minutos de recesso para confecção das cédulas eleitorais, porém, os 12 de Gaguim se trancaram numa sala. Viana com eles. Com muito aconselhamento, o neófito venceu o diabo. Juntos, os 12, fizeram um juramento de união, sob a oração do pastor Eli Borges. Com o amém no final da prece, todos garantiram que não negariam Gaguim nenhuma vez antes que a sessão encerrasse.
Então, os 12 entraram no Gólgota. Gaguim sorria, sentindo que não seria desamparado. Um repórter pediu uma foto dos 12. Haveria ali, naqueles abraços e corpos apertados, um Judas? Esse era o pensamento de todos, dentro e fora do plenário.
Na tensão da necessidade de manter o empate em dois escrutínios, cada um dos 12 caminhou para a "cruz". Primeiro turno: os 12 de Gaguim e os 12 de Halum foram fiéis. Segundo turno: não houve Judas, nem 30 moedas.
A quinta-feira com cara de Sexta-Feira da Paixão parecia agora Sábado de Aleluia. Gaguim, um dos 12, parecia ter ressuscitado. Foi ao céu em dezembro, quando ninguém acreditava em outro resultado que não sua vitória, para descer ao inferno em janeiro, com o rompimento da prévia que lhe garantia o apoio dos governistas. Dado como morto na quarta-feira, ascendeu à glória na quinta-feira. Mesmo com todas as críticas e zombaria que lhe fazem, uma vitória de um vitorioso. Glória também para a parte dos 12 que integram a oposição, vistos ora como fariseus, ora como povo samaritano. Acabaram com quatro dos sete cargos da Mesa Diretora.
Hosana nas maiores das alturas para a democracia do Tocantins. Amém para todo o sempre.
(2/2/2007)
|